Um momento é um recorte de vida, um fragmento de existência. A maneira como alguém escolhe lidar com esses pedaços de história, como os trata, o destino que dá a eles, a interpretação, o contexto, o empenho que aplica em remodelá-los, tudo isso é único, mas pode ser compartilhado e a arte possibilita isso. Recortar experiências para compor a própria identidade é ao mesmo tempo consciente e instintivo; ao darmos significado ao que nos acontece, nos tornamos artistas de nós mesmos.
A exposição "Traços do ser: Fragmentos e contornos" passa por essa poética para dar espaço à indagação "Somos o que absorvemos?". Por meio da colagem analógica, técnica central da exposição, imagens são escolhidas para uma jornada, sendo transformadas pelo caminho, ganham traços diferentes, integram-se a cenários improváveis e adquirem sentidos mais amplos. À medida que novas conexões são criadas, surgem efeitos cuja força não vem da junção das partes, mas do encontro, pois assim como na vida, as manobras de corte dividem com a promessa de que o vínculo a ser construído não será sem razão.
Estar diante de um acervo de imagens limitadas, impregnadas de tempo e donas de seu ritmo, manipular suas texturas, respeitar as marcas do gesto, acolher intervalos e restrições da materialidade, tudo isso reconfigura a lente com a qual vemos o mundo.
Cada traço de manualidade carrega em si o inédito, conduz a uma presença que permite a cada fragmento a chance de ser realmente visto e fazer parte de uma narrativa maior que sua individualidade. Assim, as obras funcionam como reflexo, mostrando que aquilo que guardamos, rejeitamos ou modificamos, silenciosamente, se torna a substância da qual somos feitos.
Os fragmentos são o que recortamos do mundo, as experiências que fazem parte da estrutura que sustenta nossas percepções e sensibilidades mais humanas. Os contornos nascem do exercício de aparar as arestas de nossos excessos e de dar forma ao que queremos mostrar ao outro, assim, traçamos o desenho a partir do que recebemos.
Cada produção visa à apreciação estética, abstração e estranhamento, mas não se limita a isso. Essa exibição propõe uma provocação para que o visitante entenda a si mesmo como uma composição em andamento, permeável, capaz de sorver os aprendizados cotidianos, de ser atravessado pelas lâminas do sentir, extraindo mais das páginas da vida, abrindo espaço para novas conexões. A exposição oferece ainda estímulos que nos fazem considerar: ver por outros pontos de vista, aderir quem somos a superfícies incertas, não temer a profundidade, nem as transparências de se expressar com honestidade, ter paciência para não perder a riqueza de detalhes do que leva tempo para ser criado e a possibilidade de se perder nas dobras que a vida dá para olhar as nuvens como amigas.
Contemplar as obras é um convite para que não percamos as oportunidades de ampliar nossos contornos, valorizar fragmentos esquecidos em nossos depósitos internos, buscar relevos desafiadores e enquadramentos que nos expandam e nos ensinem como contornar obstáculos. Afinal, abraçar nossos fragmentos e aprimorar nossos contornos é conceito unânime, bonito tanto na arte como na vida.
MAÍSA APOLINÁRIO